COLUNA DO PE. NESTOR

QUE ENRASCADA.

29/09/2016 por Pe. Nestor Eckert Compartilhar

Na história dos seres humanos, convivendo em comunidade, sociedade, coletividade, nação etc., sempre têm se constado momentos de altos e baixos e momentos de estagnação. Além desses, também verificam-se momentos de profunda indecisão e insegurança, tristeza e desapontamento. São momentos de crises. Momentos de busca de saídas sem encontrar caminho de possível solução. As angústias, as dúvidas, por vezes, tomam conta da situação. Até momentos de desespero se constatam.

                Tem-se a impressão de que atualmente estejamos vivendo e passando por situações desse tipo. Tanto em nível brasileiro como em ambiente internacional, há hoje uma sensação de mal-estar, de inquietação, de aflição mal definida, de angústia. Muitas pessoas são levadas ao desânimo, a uma situação de dúvida permanente e atroz, de desesperança.

                É certo que em nosso mundo hoje há um número muito grande de pessoas que não sabem para aonde ir. Estão sem rumo seguro, definido e certo. E esta situação já se apresenta assim há mais tempo. Não é situação de agora, de momento. Ela está marcando os últimos anos. As pessoas estão aflitas, olhando para o vazio sem resposta. Já não se avistam ou vislumbram soluções para certos problemas. E isto leva ao desânimo.

                Mais grave e profunda é a situação vivida particularmente por países e nações em que a frustração está presente e é uma verdade. A pessoa que sofre frustração é alguém que depõe todas as armas e foge de si mesma. É alguém que desistiu da luta, da busca, da vida. É a pessoa para a qual não há mais luz de tipo algum. Não há perspectivas de futuro. Ela desiste de viver. Se isto acontece com as pessoas, de maneira semelhante também acontece com os agrupamentos humanos, com as sociedades, com as comunidades.

                É característico de comunidades sem perspectivas de futuro, estarem vivendo sem pontos de referência, sem valores e indicadores de caminhada [Wegweiser] a ser feita. Nesta situação, as pessoas tendem a parar. E, paradas e desanimadas, se perguntam: “Caminhar para quê? Lutar para quê? Trabalhar para quê? Viver para quê?”. São perguntas e interrogações que as pessoas se fazem, e não encontrando respostas minimamente significativas e satisfatórias, param de vez. E não encontram razão para recomeçar.

                Repito: tem-se a impressão de que hoje estejamos vivendo situações bastante semelhantes. As crises são constantes. E são profundas. São do tipo que atingem o mais íntimo de cada um de nós. E, então, neste íntimo já não há mais respostas. Nossos gritos de angústia entram, batem bem no fundo e o eco que retorna é de vazio e desespero.

                Na época de uma profunda crise, que foi a da escravidão negra, o poeta Castro Alves, no poema Vozes da África, faz sua a voz das multidões de pessoas escravizadas, que não encontravam respostas às suas perguntas, quando grita:

“Deus, ó Deus, onde estás que não respondes?

Em que mundo, em que estela tu te escondes?

Embuçado nos céus?

Há dois mil anos te mandei meu grito,

que embalde desde então corre o infinito...

Onde estás, Senhor Deus?”...

                Tais como africanos escravizados, hoje olhamos para o alto e o infinito vazio e gritamos por socorro. Não entendemos que crimes nós cometemos para recebermos semelhante castigo, o de não querer mais viver. Parece ser essa a sensação que toma conta de muitos povos. Vejam-se os tantos refugiados, que deixam suas pátrias para correr ao encontro de um chão onde possam cair vivos... E tantas outras pessoas que, aos poucos, ficam sabendo o quanto já foram explorados e ludibriados, enganados e maltratados, que o viver já não faz muito sentido. Parece que estamos em momento profundo de dúvida, crise e de perguntas sem respostas.

                Nestor Eckert – nestor.eckert@esic.br

 


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