COLUNA DO PE. NESTOR

DECLARO MEU PATRIMÔNIO.

03/10/2016 por Pe. Nestor Eckert Compartilhar

Este é o depoimento (real e fictício) de um pequeno agricultor, quando completou 80 anos e achou que estava vivendo seus últimos meses de vida. Ele queria os jovens de hoje soubessem como era a vida há 65 anos. Naquela época tudo deveria começar do zero. Adquirir um pedaço de chão, da pior qualidade, porque o preço era menor e ele achava que daria conta de emprestar o dinheiro de outros agricultores, a juros mínimos, para conseguir pagar tudo nos prazos combinados. Não ultrapassar prazo para pagar dívida era uma questão de honra. E gerava confiabilidade. “É um homem pobre. Mas justo e honesto. Paga em dia. Pode confiar”. Isso contava pontos para sobreviver e tentar uma vida no futuro.

Inicialmente, a vida judiada da roça cheia de pata de vaca, unha de gato e guamxuma. O que se podia esperar de produção? Alguma batata doce, alguns pés de mandioca, alguns feixes de feijão preto, se o clima ajudasse e favorecesse. A criação de algumas galinhas a partir de um casal (galo e galinha ganhos da mamãe). Um casal de porquinhos, que levaria tempo para procriar, porque ainda eram alimentados à base de leite, quando havia. A comida diária, além de pouca, era fraca em nutrientes. A sorte era que o vizinho, estabelecido há mais tempo era bondoso e sentia-se bem em ajudar o jovem aventureiro, mas que queria constituir família, ter um lar.

 O trabalho tinha de ser feito na chuva e nos dias de sol ardente. No verão alto e no inverno friorento e chuvoso. Tudo à base de foice e depois arados puxados por bois. Dias e dias lavrando e arrancando, separando, amontoando guamxuma, pata de vaca, unha de gato, picão, milhão. A rocinha estava se apresentando. Pequena, mas limpa e em condições de receber as primeiras sementes. A batata doce deu o primeiro sinal animador de vida e sobrevida. A mandioca crescia. Os adubos do picão e do milhão e das folhas dos arbustos era um adubo natural e eficiente.

Depois um piquete para alimentar e proteger uma novilha e um tourinho e os porquinhos. Os porquinhos e torneirinhos, embora soltos pela capoeira, estavam crescendo e tomando corpo e logo entrariam no cio, esperança de vida nova. E, assim se deu. Esperança luzindo...

Era hora de pensar num ranchinho. Chamar o padre e preparar casamento. A futura esposa, na medida do possível, ajudava nesta lida. E logo, no meio da capoeira aparecia uma casinha de bambu, com uma só repartição: cozinha, sala de refeição, quarto de dormir, lugar para deixar as poucas tralhas etc. Mas, era este o seu lar!

Casa construída, casamento realizado, começam a vir os filhos. Seis ao todo. Perguntado sobre como foi possível criar seis crianças, em situação de tamanha pobreza, ele apenas responde: “Só eu sei. Quantas vezes, na hora do almoço havia apenas feijão e mandioca, que havíamos colhido. Mas, as crianças nunca reclamaram da comida. Comia-se o que havia. À noite, a refeição era aquilo que havia sobrado do almoço. Mais tarde algum ovo, misturado com alguns legumes”.

“Éramos pobres, muito pobres, mas vivíamos contentes. Nunca ninguém reclamou de nada. Aos poucos, a vida melhorou. Mas, hoje estou desiludido, sinto-me enganado, traído”.

“Como assim?”, pergunto. E ele passa a relatar as tantas vezes em que lhe prometeram ajuda para melhorar a vida na roça, promessas de que os preços de seus produtos aumentariam de preço, que haveria crédito, que o governo estava com bons programas para desenvolvera agricultura etc. disse que o desânimo, nos últimos anos, tomou conta de sua vida. O médico lhe disse que estava com início de depressão, que ele nem sabia o que era. Disse-me que uma vez não pôde votar e não sabia como justificar para regularizar o título. Resolveu, isso há uns 20 anos, que nunca mais votaria. E nunca mais votou. “E agora estou assistindo a essas barbaridades na política. Ninguém leva ninguém a sério. Melhor assim. Estou fora”.

                Pergunto, qual é seu patrimônio. Ele me responde, depois de pensar um pouco: “Meu único patrimônio é minha consciência tranquila! Posso morrer feliz”.

                Nossos sistemas políticos acabam com projetos de vida. São assassinos...

                Nestor Eckert – nestor.eckert@esic.br (55) 9933.6069 ou (41) 3094.7778.


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