COLUNA DO PE. NESTOR

ESTAMOS NOS ACOSTUMANDO?

17/10/2016 por Pe. Nestor Eckert Compartilhar

Houve quem dissesse – e foram diversas pessoas, de maneiras diferentes – que uma mentira, ou uma história não verdadeira, se repetida muitas vezes, ela se torna verdade. Isto é, as pessoas passam a aceitá-la como se verdade fosse. Em meu período de estudos de mestrado e doutorado, na Itália, tive oportunidade de, nas férias, trabalhar durante três meses na Alemanha. Ótima experiência. Diferença grande de cultura, ao mesmo tempo, constatação de como brasileiro é benquisto pelos cidadãos alemães. Ainda mais se sabe falar alemão, mesmo que um dialeto. Desta experiência de vida na Alemanha, lembro-me, de modo particular, de um fato diário. No início, eu ficava muito assustado. O fato era este: na casa em que eu morava, diariamente eu via, ouvia e sentia aviões de guerra sobrevoando a comunidade. Muitos desses aviões carregavam bombas. Faziam um barulho ensurdecedor. As copas das árvores dobravam-se atingidas pelo vento das naves aéreas. O susto era grande. Era quase medo.

Um dia, eu perguntei para uma das pessoas com quem tinha adquirido certa proximidade e coragem de falar um alemão clássico (Hochdeutsch) meio quebrado, se nunca tinha acontecido de cair um avião, ou algum deles ter perdido uma bomba ou sofrido uma pane. A pessoa me disse que não. E eu insisti perguntando sobre qual seria a reação das pessoas da comunidade se algum dia um avião caísse ou “perdesse” uma bomba? Ela me disse: “Não sei. Nós estamos nos acostumando tanto que, se houver um acidente desses, para nós será apenas um acidente de trabalho. Será normal”.

Refletindo e tentando entender o que está acontecendo conosco hoje, no Brasil, chego a pensar que estamos sendo manipulados, “treinados” a ir nos acostumando... Acostumar-nos aos roubos, aos assaltos, às corrupções, às enganações, a passar por cima das leis para favorecer-nos, a escutar como totalmente normal a frase “afinal, todo mundo faz assim”... O navio está afundando e a orquestra continua a tocar durante a festa em sala fechada. “E la nave va” (“E o navio flutua”).     

No mínimo, soaria estranho ouvir que em um país o ex-presidente e sua sucessora, acusados de roubo e corrupção, continuem vivos, livres, soltos e querendo mandar. Mais estranho: saber que há pessoas defendendo e falando dos outrora governantes como se nada tivesse acontecido. Estranho é igualmente saber que, de maneira geral, todos os que estiveram à frente de governos sejam acusados dos mesmos delitos e das iguais safadezas.

Infelizmente, estamos nos acostumando. É assim mesmo... Não há o que fazer... São acidentes de percurso. São acidentes de trabalho. São casos que acontecem. O anormal vem visto como normal. O errado é certo. Em comunidades simples e pacatas, pessoas de bem, à busca da detenção do poder, são capazes de fazer como todos os outros sempre fizeram... E, com isso, a ética, a moral, o correto proceder, a sã consciência, o bem comum são escoados pelos ralos e largados nas sarjetas.   

Haverá ou surgirá alguém para dar um basta a esta situação? Quem tem condições e vontade de reagir e dar início à mudança? Retorna sempre a questão do guizo e do gato. A lenda diz que os ratos resolveram enfrentar o gato e livrar-se dele porque eles viviam constantemente ameaçados de morte. Fizeram uma grande reunião, da qual toda a rataria participou. Chegaram a uma conclusão: colocar um guizo (uma espécie da sineta) no pescoço do gato. Sempre que o gato se aproximasse, o guizo soaria e os ratos poderiam refugiar-se com segurança. Todos aplaudiram a decisão. Quando, de repente, um rato bem sarnento e doente, velho e acabado, resmungou do seu cantinho: “E quem vai colocar o guizo no gato?”.

Até hoje, em todos os lugares, em qualquer circunstância, ratos fogem de gato. Quem vai...?

                Nestor Eckert – nestor.eckert@esic.br


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