COLUNA DO PE. NESTOR

JÁ FOI ASSIM POR AQUI... (II).

28/11/2016 por Pe. Nestor Eckert Compartilhar

A experiência nos mostra que cada de um de nós passa por momentos de saudades e lembranças de tempos já vividos. São os momentos em que, querendo dormir, não “pregamos o olho”, em que querendo concentrar-nos em assuntos do dia a dia, vêm-nos à mente as   recordações do que passou... E “recordar” significa dar mais vez ao coração, aos sentimentos.

Até certo ponto, é isso que pretendemos ao falar de que “por aqui já foi assim...”. Dar corda ao coração, às lembranças, aos sentimentos (não sentimentalismos!), às coisas boas e bonitas já vividas e que sofreram mudanças significativas em função do passar do tempo. “Recordar é viver”. Além de ser uma frase clichê, é uma música interpretada por Perla. Podemos não concordar, mas todos nós temos nossas recordações, nossas reverberações do coração... E são sempre recordações de vida ou de momentos de nossas vidas.

Lembramos e recordamos hoje a água. Como era o acesso à água pelas pessoas, pelos imigrantes, pelos primeiros colonos, vindos para nossa região na década de 1930 e 1940, em sua maioria? Parece estranho perguntar isso, mas se lembrarmos que a energia elétrica e o acesso a ela tornou-se realidade para todos na década de 1970 (as famílias da Linha Almeida tiveram acesso a esta em 1974, se não me falha a memória...). Após o acesso à energia elétrica, o acesso à água ficou facilitado com instalação de bombas e outros acessórios.

Antes da energia elétrica e da canalização da água, hoje provinda em grande parte, de poços artesianos, a grande fonte de água para as famílias eram os poços cavados manualmente e “no braço” pelos colonos. A possibilidade de poder cavar um poço era dos critérios no momento de decidir pela terra a ser comprada e habitada. Havia uma pergunta que os imigrantes alemães faziam: “Gibt es hier Stanthaft Wasser?” (Há água permanente aqui?). Se a resposta fosse positiva, a terra era adquirida.

A primeira decisão a ser tomada: qual é o local exato para cavar o poço? Onde, provavelmente, jorraria água depois de cavar a terra à fundura de um até, no máximo, cinco metros? Quem poderia indicar o local, caso não houvesse sinal evidente de possibilidade de água? A saída era recorrer àqueles que tinham certo grau de adivinhações ou, então, de sensibilidade estranhas e manuseavam varas de pessegueiro, de nectarina (Flaume) que se dobravam ao passar por um veio ou uma fonte segura. Ou eram usados mesmo anéis, relógios de pulso (quando houvesse), agulhas que giravam ao passar perto de fontes “garantidas” e veios de água (Quelle).

Passada esta fase mais “misteriosa”, passava-se ao trabalho duro de cavar. Era uma fase tocada a muito suor e esperança de que o “adivinhador”, o “achador de água”, o “Wasser Sucher”, estivesse certo. A cada palmo cavado, aumentava a esperança ou diminuía a certeza de água por perto. Muitas vezes, o pai de família pedia ajuda dos vizinhos na cavação do poço. O trabalho era muito para uma pessoa. Havia necessidade da ajuda de outros braços. A companhia de mais gente fazia o trabalho render e a água a jorrar.

Momento todo especial de alegria, realização, sentimento de objetivo alcançado era quando apareciam os primeiros sinais evidentes e claros de que ali havia água... “Hier gibt es Wasser”. Cavava-se com ainda maior vontade e decisão. Descoberta faceira era quando se descobria um veio por onde a água estava vertendo. Era sinal de água constante e permanente no poço. Esperava-se por algumas horas ou, até mesmo, por um dia ou mais para provar que não era engano ou ilusão. Havia quem levantava durante a noite para certificar-se de que a água no poço cavado estava subindo de nível!

Poço cavado e água bastante, era hora de começar a implementar a fonte de água. Era necessário cobrir o poço com um telhadinho. Se fosse muito fundo, construía-se uma roldana com corda ou corrente para descer o balde vazio e subir com ele cheio de água para beber, para a cozinha, para lavar roupa, se não houvesse outra possibilidade de acesso à água para isso. Água para os animais, especialmente vacas e bezerros, para os suínos. Enfim, água para tudo. Um dos serviços dos pequenos, que tinham certa força, era carregar água para dentro de casa antes da noite, enchendo todas as latas e panelas e os baldes disponíveis.

Ter acesso à água, por aqui, já foi assim... Hoje, basta abrir uma torneira. Para chegar a isso, foi necessário cavar muito poço.

Nestor Eckert – nestor.eckert@esic.br  


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