COLUNA DO PE. NESTOR

POR AQUI JÁ FOI ASSIM... (I).

28/11/2016 por Pe. Nestor Eckert Compartilhar

Em nossa vida e em nosso jeito de viver há realidades que vivemos como se sempre tivesse assim. Por vezes, somos levados a pensar que tudo sempre foi como é hoje e que seria difícil imaginar jeitos diferentes de viver. No entanto, o que parece ser mais permanente e duradouro é a mudança e a transformação em nossos jeitos de viver.

Hoje, se observarmos, aos domingos, em muitas famílias de nossa região, para não dizer que em quase todas elas, é hábito fazer churrasco para o almoço. Carne, maionese, pão, talvez um arroz ou umas raízes de mandioca ou aipim e está pronto o almoço. É o dia em que as mulheres ficam com o encargo de providenciar algum tipo de sobremesa. A bebida também é bastante semelhante e comum: chimarrão, caipirinha, cerveja, refrigerante. Após o almoço, espaço para a convivência, um bom papo, mais um chimarrão. A rapaziada se dirige para o campo de futebol e as canchas de bocha.

Nem sempre foi assim. Vejamos como era um churrasco há 50 ou 60 anos. Churrasco em família era uma raridade. Em nossa região, predominantemente de colonização alemã, de colonos vindos das colônias velhas (Vale do Taquari: Lajeado, Estrela, Santa Clara do Sul, Arroio do Meio, Capitão, Cruzeiro do Sul, Encantado, Forquetinha, Travesseiro, Marques de Souza, Teutônia etc.), as famílias não tinham o hábito do churrasco aos domingos, à hora do almoço. Era hábito aos domingos no almoço tomar a sopa, comer carne de frango, maionese (Kartoffel Salad), uma massa caseira. Ninguém imaginava, por exemplo, comer feijão aos domingos, ou mandioca. Comer isso era quase um “pecado”.

Quando havia churrasco, isso era um acontecimento. Era dia de convidar vizinhos e parentes. Era abatida uma rês, no potreiro, à sombra de uma árvore, aos sábados pela manhã. Enquanto o pai e o vizinho se ocupavam com a carne, os meninos deviam ir à capoeira, fazer espetos para usar no domingo. Os espetos deviam ser muito bem escolhidos. Ramos bem retos. Não muito grossos nem finos. Deviam ser espetos! Não podiam deixar gosto na carne, muito menos correr o risco de conterem algum tipo de “veneno”, que estragasse a carne. Carne era produto raro na região. Não havia criação de vacas como hoje. Cada família tinha, em média, duas a três vacas para fornecer leite e derivados (nata, queijo, soro, coalhada) como alimento.

 Além dos espetos a piazada devia providenciar um tronco de bananeira para deixar de um lado da churrasqueira (que era um buraco cavado no chão) para fincar os espetos com carne. Além disso, deviam arranjar lenha boa. Essa sempre havia à vontade: angico, laranjeira, guajuvira, pitangueira, bracatinga, bergamoteira, guabiju etc. Eram troncos inteiros providenciados para fornecer uma boa brasa para assar a carne.

Enquanto a carne era assada, o pai dava ordem a um dos meninos para que fosse até o poço e de lá tirasse uma garrafa de pinga, colocada logo de manhã cedo para se refrigerasse. No poço também havia as garrafas de cerveja e gasosa. Como não havia energia elétrica, ou de outro tipo, também não havia geladeira, congelador, possibilidade de gelo etc. O ambiente mais “refrigerado” era água de poço ou o porão da casa.

A hora do almoço era momento especial. A mesa era um improviso de tábuas e cavaletes ajeitados na última hora. Os assentos eram as latas de querosene, os balaios mais firmes, os caixotes que havia pela casa etc. Os espetos, com carne, de aspecto bom e apetitoso, rodavam  pela “mesa de festa”. E era festa mesmo. Churrasco havia somente em ocasiões especiais: Natal, Páscoa, Festa de Kerb, casamento na família. Churrasco fora dessas datas era um acontecimento na comunidade... Quem oferecesse churrasco “fora de época” era tido como um “colono forte”.

Churrasco, em nossas famílias, já foi assim...

Nestor Eckert – nestor.eckert@esic.br


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