COLUNA DO PE. NESTOR

JÁ FOI ASSIM POR AQUI (3)...

07/11/2016 por Pe. Nestor Eckert Compartilhar

Por aqui já foi assim. Nem parece. Quanta mudança em tão pouco e curto espaço de tempo. E que mudanças profundas. Como tudo era diferente ou como as coisas hoje são diferentes. E as diferenças se verificam e se veem em quase tudo. Não é apenas um detalhe, ou não são apenas detalhes. São diferenças muito marcantes.

Essas e outras expressões surgem quando pessoas começam a lembrar de como era comunicação entre humanos há questão de 50 anos. Quem não viveu nessa época, isto é, lá entre os anos 1950/1960, não consegue fazer ideia de como era o jeito de viver das pessoas. De modo particular, era bem diferente a comunicação das pessoas e os meios usados para estabelecerem comunicação entre si. Citaremos alguns casos e exemplos para perceber como a tecnologia aplicada aos meios de comunicação trouxe mudanças na maneira como as pessoas se relacionam e se relacionavam entre si. Vamos a alguns casos de vida.

O nascimento de uma criança. Sabemos, por exemplo, que a lenda da fogueira de São João, em época de festas juninas, teria surgido porque o pai de João Batista queria avisar seus vizinhos de que Isabel, que era tida com estéril, dera à luz um menino. O meio para comunicar a notícia foi acender uma grande fogueira! “Si non é vero é bene trovato” = “Se não é verdade, é uma boa saída”, diriam os italianos. Em nossa região, as pessoas um pouco mais distantes ficavam sabendo que havia nascido uma criança, uma neta, um primo, um pequeno “vizinho”, por ocasião das festas de Natal, Páscoa, festa de Kerb. Sabia-se do nascimento de alguém quando se visse a criatura. Por vezes, já com mais deum ou dois anos.

Encontros sem comunicação. Esta realidade é bastante interessante: a Festa de Kerb, que era a celebração do dia do padroeiro da comunidade, era dia de os parentes se encontrarem. A data e o encontro já estavam marcados automaticamente: dia do padroeiro era dia de ir até a casa de parente. Ninguém pensava em faltar em uma festa dessas. Se, por acaso, alguém faltasse, começavam a ser levantadas todas as hipóteses possíveis de por que aquele parente não veio? Estaria brigado com alguém? Alguém não fora à sua festa de Kerb no ano passado? Para estar ou ir a esta festa não precisava de comunicação. Esta data já ficava marcada automaticamente de um ano para outro.

Casamento em família. Era uma data que ficava marcada com muito tempo de antecedência. Se alguém da família encontrasse um conhecido podia fazer o convite. Por vezes, até mais de um ano antes. Poderia acontecer de em um período de um ano ninguém da família encontrasse este parente. Não se poderia perder ocasião de fazer o convite. Não precisavam ser os noivos ou os pais. Eles também não se preocupavam se viessem alguns “convidados” a mais, que não haviam sido contatados. Alguém havia feito o convite. Quem soubesse do casamento, avisava os parentes de haveria casório em tal data...

Notícia de falecimento. Por vezes, filhos que estivessem um pouco distantes de casa não ficariam sabendo que seu pai ou mãe tinha falecido. Às vezes, depois de muito tempo, quando o filho distante chegasse a casa, após anos, ficava sabendo que pai ou mãe falecera. E nem por isso fazia-se escândalo. Era assim...

Um dos meios talvez mais velozes de comunicação era a carta. Era meio de comunicação rápido, se a carta fosse entregue. Havia momentos e casos em que ela ficava para sempre nas estantes, prateleiras ou repartições dos correios. Na época em que as notícias viajavam à velocidade do trote do cavalo, a velocidade de comunicação era de 16 quilômetros por hora. Passei pela experiência das notícias por meio de carta. Eu estudava em Corupá/SC e os pais moravam em Boa Vista do Buricá. A distância entre as duas cidades é de 770 a 790 quilômetros, isto é, hoje percorrendo em carro, sem parar, levam-se quase dez horas. Em 1966, eu escrevia uma carta aos meus pais e eles a recebiam três meses depois. Se depois de um mês eles resolvessem responder, eu recebia notícias de casa, mais de meio ano depois. Já foi assim para quem estivesse fora de casa e longe dos pais!

Hoje, basta acionar uma tecla e no mesmo instante em qualquer parte do mundo consigo comunicar-me com quem quiser. É assim. Já foi diferente. Como será daqui a pouco? Parece que não podemos saber... Notícia a 16 km por hora, nunca mais. Ou...

Nestor Eckert – nestor.eckert@esic.br      


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