COLUNA DO PE. NESTOR

E, QUANDO HAVIA NÃO BANCO...

14/11/2016 por Pe. Nestor Eckert Compartilhar

Nosso mundo, nossas instituições, nossas negociações, nossas compras e vendas, enfim nossa vida, hoje está marcada pelo uso da moeda virtual. Trabalhamos com cartão de crédito e débito, envio de “moeda” que não é moeda, mas sim valor em forma de ar. Trabalhamos com moeda que é não-tangível, isto é, moeda que não tocamos com as mãos, não vemos esta moeda. Quando queremos enviar certo valor a alguém, ou queremos fazer um pagamento, clicamos uma ou mais teclas e a transação econômico-financeira está feita.

E quando não era assim, como acontecia a movimentação de dinheiro? Como as pessoas conseguiam dinheiro? Como tinham acesso aos recursos financeiros para conseguir manter a vida? Como procediam para comprar a primeira terra para cultivar e produzir alimentos? A que ou a quem recorriam para ter acesso a um dinheirinho para construir a primeira casa ou o primeiro galpão, constituído de estrebaria, paiol, espaço livre para a carroça, canga e outros objetos necessários para tocar a vida na roça? Junto à estrebaria, ao paiol, também estava a casa, constituída de espaço para cozinha, que era também a sala, o ponto de encontro e havia um ou dois quartos com camas muito simples. Sanitários, apenas fora e longe de casa: era o “capungo”.

Em questão de dinheiro, há 60 ou 70 anos, não havia banco na região de Boa Vista do Buricá, Nova Candelária, São José do Inhacorá, São Martinho etc. No máximo, era possível encontrar banco em Três de Maio, a essa época. Mesmo assim, para deslocar-se até Três de Maio era um acontecimento. Poucas famílias possuíam carro ou auto, como se dizia por aqui. Quem não tivesse como se deslocar tinha de esperar até que o acaso fazia saber que alguém estava indo a Três de Maio e se aproveitava a ocasião para ir de carona. Uma ida a Três de Maio, nessa época, levava um dia quase inteiro para ir e voltar. Isso, se tudo corresse bem.

O acesso ao dinheiro por parte de agricultores mais pobres, e esses eram maioria, era possível por meio de empréstimos. Um agricultor ou colono “mais forte” emprestava dinheiro aos mais pobres. O recurso mais comum que os colonos tinham para fazer dinheiro eram chiqueiradas de porcos. Mas, um chiqueiro cheio de suínos gordos, prontos para serem vendidos, demandava meses. Não havia os prazos estabelecidos como os há hoje: 90 a 110, dependendo do caso. Os porcos ainda tinham direito de serem porcos!

Tenho em mãos diversas “notas promissórias”, por das quais o agricultor que pedia dinheiro emprestado de outro, do “colono forte”, prometia ou assumia o compromisso de devolver a quantia emprestada, a juros de seis a dez por cento ao ano, quando o emprestador avisasse com uma antecedência de 60 a 90 dias, conforme estabelecido no documento escrito e selado (não havia carimbo). Em Ivagaci, havia o Sr. Camillo Walker que escrevia esses documentos (notas promissórias) e os selava. Tenho, inclusive, documentos totalmente escritos à mão ou manuscritos.

Os textos dos documentos de garantia de devolução dos empréstimos eram sempre nestes termos: “Eu, abaixo-assinado, (nome da pessoa que tomava dinheiro emprestado) declaro que recebi do Sr. (nome de quem tinha o dinheiro e cedia o empréstimo) a quantia de (valor do empréstimo, por extenso) em moeda corrente, obrigando-me apagar o juro de (valor do percentual) por cento ao ano pelo tempo que me for concedido, e assim também a restituir e pagar ao mesmo Senhor ou a sua ordem, no seu domicílio, a dita quantia, (número dos dias concedidos) dias depois de me ser exigida, e pelo pronto pagamento responderei com todos os bens que possuo e possuirei. E, para constar, onde for de direito e produzir em todo o tempo os seus efeitos legais, obrigando-me mais a pagar todas as despesas judiciais e extrajudiciais que o mesmo Senhor fizer para efetuação dessa cobrança, assino a presente clareza, em presença das testemunhas, também abaixo-assinadas”.  Seguem data e assinaturas e os selos.

Dificilmente este tipo de transação financeira (empréstimo) criava problemas. Quem era “colono forte”, mais ou menos, já sabia a quem podia e a quem não seria interessante emprestar dinheiro. De quem se desconfiava quanto à honestidade, exatidão em seguir prazos etc., este era chamado “jaguara” e dificilmente conseguia empréstimos.

Hoje, em algumas comunidades, novamente está sendo feita a experiência de empréstimos como se fazia há mais de 60 anos.

Nestor Eckert – nestor.eckert@esic.br  


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