COLUNA DO PE. NESTOR

CHAPECOENSE: O QUE APRENDER?

13/12/2016 por Pe. Nestor Eckert Compartilhar

Recordo uma Semana Interna de Prevenção de Acidentes (SIPAT), acontecida em Mafra, SC, em que participei como palestrante para profissionais das Centrais Elétricas de Santa Catarina S.A. (CELESC) falando sobre como as pessoas, normalmente, reagem diante de acidentes. Após abordar os aspectos sociológicos, antropológicos, morais, espirituais que envolvem fenômenos como acidentes, desastres, mortes repentinas a palavra ficou livre. Muitos falaram e fizeram seus depoimentos. Momentos de muita aprendizagem e partilha de experiências de vida. Relato de históricos de vidas perdidas e vidas salvas. Momentos de tomar a vida em mãos questionar-se e definir-se diante dela.

Um depoimento foi ilustrativo, dada a sua clareza, seu caráter de realidade crua e nua, forte e impactante. Um técnico em eletricidade, com muita experiência de vidas salvas por sua experiência e habilitação técnica, disse a todos os presentes (mais de 300 pessoas) algo para o  que poucas pessoas tinham atentado ou dado atenção no momento. Era o conhecimento provindo do dia a dia de alguém em contato contínuo com o risco e o perigo. Ele foi muito realista.

Disse o técnico: “As pessoas gostam de ver acidentes. Eles são fascinantes e sempre atraem muita gente. Quanto mais terríveis tanto mais as pessoas querem ver os acidentes. Parece que as pessoas gostam de ver sangue. Parece que as pessoas querem que um acidente seja muito espetacular. Isto é, querem que seja um espetáculo. Quanto maior o acidente tanto mais olhos para vê-lo”. Disse isto e muito mais.

Após acontecer o anúncio da queda do avião com a delegação da Associação Chapecoense de Futebol (ACF), na madrugada de 29 de novembro, a 1h15min, entre as cidades de La Ceja e Abejorral, na Colômbia, muitas ou todas as pessoas passaram a fazer comentários, a contar histórias, a interpretar dados, buscar fatores e explicações. É o comportamento normal da vida em sociedade. Acidente deste tipo, com a morte de 71 pessoas, provoca comoção, solidariedade, susto, “vida sem chão”, desorientação, crises...

De outro lado, há fatos que nos ensinam e fazem ver outros aspectos. Uma vez constatadas as mortes, não há o que fazer senão buscar como superar a situação. Foi isso que jovem torcedor do time verde e branco do oeste catarinense disse que estava fazendo para enfrentar o fato da morte dos atletas e pessoas ligadas ao time.

Disse ele: “Eu procuro lembrar cada um deles como eu os conhecia. Não havia distância entre eles e os torcedores. Eles vinham ao supermercado, às praças, aos restaurantes, muitos deles eu encontrava na Igreja, indo à missa; encontrei alguns passeando na rua com os filhos e a esposa. Eles cumprimentavam a gente. Conversavam conosco. Tomavam chimarrão com os vizinhos e com a gente na praça. Alguns deles tocavam violão, cantavam, faziam festa. Nunca vi alguém falar mal da vida de algum dos jogadores”. E, assim por diante. O moço falava de “gente normal”, “igualzinho a nóis”.

É do depoimento deste jovem torcedor que eu aprendi muito. De modo geral, quando se fala em “jogador de futebol”, tem-se o estereótipo (imagem preconcebida e fixa de uma realidade) do jogador do Rio de Janeiro e São Paulo, ou das grandes capitais do Brasil. É o tipo do sujeito  que depois de assinar o primeiro contrato e ficar no banco de reserva por diversos jogos, já se acha na condição vir ao treino em carro de último tipo e que todas as mulheres estão correndo atrás dele. Por isso, deve ocultar-se e fugir da torcida. Ele já se vê ídolo antes de a torcida conhecê-lo como chutador de bola. É o jogador que deve exibir penteado extravagante, usar chuteira de todas as cores, treinar dancinhas e falar mal, muito mal, o português...

Tudo era tão diferente nesta saudosa Chapecoense dos catarinenses e nossa. Eles eram gente. Eles se divertiam com o futebol. Eles alegravam a comunidade com a bola nos pés. Eles eram “iguaizinhos a nóis”... Eram pessoas! Aprendi com vocês, atletas da Chapecoense, que ser feliz não é tão difícil. Vocês deixaram uma comunidade inteira com saudades de vocês. Com saudades da felicidade de vocês!

Nestor Eckert – nestor.eckert@esic.br       


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