COLUNA DO PE. NESTOR

UNE OU SEPARA?

13/12/2016 por Pe. Nestor Eckert Compartilhar

Quando estudamos a História e o comportamento das diversas comunidades ou dos mais diferentes agrupamentos humanos, constatamos que por muito tempo não havia territórios ou áreas geográficas definidas onde as pessoas pudessem fixar-se e viver. Os comportamentos mais comuns dos grupos humanos eram de migração. Os agrupamentos eram itinerantes. Não se fixavam em determinada área geográfica. Os indivíduos se deslocavam à busca e à procura de alimentos e caça, fugindo das situações adversas do clima, como, por exemplo, excesso de frio ou calor, falta de água e alimentos etc.

À medida que os agrupamentos aumentavam e surgia a pressão demográfica (isto é, muita gente para pouca terra e escassos recursos) as coletividades se fixavam à terra e a defendiam. Passaram a caçar e aprisionar animais “em casa”, donde vem a palavra “domesticação”, que significa manter animais vivos em “casa” (“domus” = casa). Ao mesmo tempo, aprenderam a armazenar alimentos em casa. Antes, à medida que precisassem de alimentos iam à procura dos mesmos. Agora, como os alimentos de tornavam raros e estavam à longa distância, tornava-se necessário “armazenar” para o futuro. Parece que é daí que vem o comportamento e a noção de “propriedade privada”. Agora os bens e recursos já não eram mais de todos, mas cada indivíduo em particular conservava e defendia os seus bens (e suas propriedades).

Os territórios ou áreas de terra passaram a ser particulares: ou de indivíduos ou de agrupamentos. Os indivíduos ou os agrupamentos “apropriavam-se” de territórios. Visando definir (colocar fins) a área pertencente a cada um, colocaram-se marcos delimitativos. Entre uma e outra área ou, então, já agora “propriedade”, colocaram-se ou estabeleceram-se divisas, fronteiras, limites, demarcações. Nas áreas e propriedades rurais, fincavam-se pequenos cepos de boa e grande duração (no dialeto huhnsrück, dizia-se “Grenze Posten”) para indicar os limites de cada “propriedade”. Entre em um e outro agrupamento humano, serviam como divisas os acidentes geográficos, como, por exemplo, rios, regatos, montanhas, estradas já antigas etc.

No caso dos rios é interessante perguntar: se o rio for bastante largo, até aonde vai o limite da propriedade de cada comunidade de cada agrupamento? Até o meio do rio? Mas, como definir “meio do rio”? O idioma alemão passou a dar solução. Em alemão, a linha de maior profundidade no leito do rio chama-se “Talweg”,  “Tal + Weg” = “caminho do vale”, o que em português resultou no termo “talvegue”, que é exatamente a “linha de maior profundidade no leito do rio” (DICIONÁRIO HAUAISS). Ele faz a divisa entre duas comunidades, dois agrupamentos, dois municípios, dois estados, dois países. Quando a divisa é feita por uma estrada ou uma estrada é vista e é tida como divisa, é a linha que, se traçada, estaria exatamente no meio da estrada. Veja-se o caso de Santana do Livramento/RS e Rivera/Uruguai. Há uma avenida entre duas comunidades internacionais. Até o meio da avenida e Brasil; do meio para o outro lado, é Uruguai.

O que, por vezes, alguns alunos perguntam: uma divisa separa dois municípios (Nova Candelária e Boa Vista do Buricá), dois estados (Santa Catarina e Rio Grande do Sul), dois países (Argentina e Brasil) ou une um ao outro?

A resposta a esta questão parece que se encontra na cultura, na maneira como as duas comunidades, os dois municípios, estados, países se relacionam entre si. Se a relação entre as duas comunidades geopolíticas for de consenso, de entendimento, de cooperação a divisa pode unir ambas as coletividades. Se a relação for de conflito, desentendimentos, competição etc., a divisa será tida como marco de separação. Por exemplo: pode-se dizer que o Rio Uruguai une Brasil e Argentina, mas também haverá quem diz que o mesmo rio separa Brasil e Argentina.

Fronteiras, divisas, demarcações, limites não são apenas marcas geográficas. Por vezes, há marcas de relacionamento, de trocas, de ideias, de jeitos de viver, de valores, convicções e crenças que são bem mais profundas e fortes que grandes e largos rios, altas montanhas e profundos precipícios, mesmo que precipício seja algo “sem fundo”.

Afinal, uma divisa separa ou une?

Nestor Eckert – nestor.eckert@esic.br     


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